Na década de 60 o Brasil já possuía um razoável histórico de casos envolvendo aparecimento de OVNIs. Uma série de casos consistentes, apoiados nas declarações de várias testemunhas (inclusive militares) e fotos. A imprensa de um modo geral, noticiava os casos com relativa frequência e a opinião pública, tal qual nos Estados Unidos, mostrava-se inquieta quanto aos propósitos desses estranhos e sorrateiros visitantes.
Os militares não estavam alheios aos fatos e sem alarde algum, desenvolveram um projeto de investigação que seria a versão brasileira do Projeto Blue Book norte-americano. Era o SIOANI- Sistema de Investigação de Objetos Aéreos não Identificados e tinha como principal objetivo à investigação dos OANI ou Objetos Aéreos Não Identificados.
No primeiro Boletim datado de março de 1969, na página 6 encontramos a explicação do porquê da existência do projeto:
“... o Brasil não escapou a onda de notícias sobre o aparecimento de OANI. Como nas demais partes do mundo, até contatos diretos com tripulantes e até mesmo, viagens interplanetárias foram anunciadas com o sensacionalismo de sempre. Fotografias foram tiradas, quase em “close-up” e comercializadas em mercado estrangeiro... as notícias diminuíram de intensidade até que, a partir de agosto de 1968, voltaram ao conhecimento público, num crescendo que vem abalando até os mais céticos... São Paulo parece ter sido escolhido para palco o palco principal dos acontecimentos. Raro tem sido o dia em que a imprensa não divulga a notícia de um OANI neste estado... é evidente que a onda de notícias sobre o aparecimento de OANI no estado de São Paulo tem aumentado gradativamente, este fato chamou a atenção da FAB e em particular da IV Zona Aérea ... resolvemos então criar um sistema de investigação que nos orientasse normativa e cientificamente na pesquisa do fenômeno”.
Foi assim que os militares do IV Comando Aéreo Regional (COMAR), QG 4 –CIOANI, sediado na Praça Prof. Oswaldo de Vicenzo, 200 – Cambuci – São Paulo, sob o comando do Coronel José Vaz da Silva explicaram a criação e apresentaram a metodologia empregada no projeto SIOANI. Um projeto pioneiro no Brasil que pretendia investigar a fundo todo e qualquer fenômeno envolvendo Objetos Voadores Não Identificados ou como aqueles militares preferiam dizer: OANI – Objetos Aéreos Não Identificados.
Era um projeto ambicioso, embora dotado de poucos recursos e pessoal, mas que pretendia buscar respostas para muitas questões que intrigavam os próprios militares. Na página 20 do primeiro boletim, eles se perguntam:
“... qual a natureza dos fenômenos que tem sido observados nas mais variadas partes do globo terrestre? Seriam psicológicos, meteorológicos ou astronômicos? É nosso dever investigar-lhes as origens ... observações idôneas relativas às incidências desse fenômeno mostram-nos que sua frequência e disseminação, em diversos países tem crescido consideravelmente. O grupo de homens da ciência, dedicados ao estudo dos OANIs tem se enriquecido com nomes de alta categoria profissional, fato que sugere a necessidade de um estudo cientifico. Muitas ocorrências, tem sido reportadas por pessoas idôneas, sendo nosso dever dedicar atenção ao fenômeno”.
Quando mencionam os cientistas envolvidos no estudo dos OVNIs é certo que se referiam aos cientistas que auxiliavam o Projeto Blue Book norte americano. Com certeza entre os muitos méritos desse projeto, um dos mais significativo, é o de dar credibilidade ao estudo dos OVNIs.
Os astrônomos, físicos, geólogos, químicos e militares aposentados se uniram e emprestaram sua credibilidade e seriedade ao projeto, estimulando outros países, como o Brasil, a fazerem o mesmo e desenvolveram projetos semelhantes.
O segundo boletim, datado de agosto de 1969 é surpreendente. Vem recheado de relatos minuciosos e desenhos detalhados de avistamentos ocorridos nas mais variadas regiões do Estado de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Por outro lado, revela a frustração dos militares envolvidos no projeto, por não ter conseguido desenvolver as pesquisas com a profundidade que desejariam. Expõe a precariedade e falta de recursos disponibilizados para esse trabalho. Os militares queixavam-se abertamente da sobrecarga de tarefas a que eram submetidos e que apesar de motivados e envolvidos com o seu trabalho, não conseguiam ir além do básico.
A falta de pessoal para efetuar as entrevistas no local dos avistamentos e a postura dos superiores em conferir a missão OANI (como era chamada) um “status” de tarefa complementar dificultava enormemente o avanço dos trabalhos. Mesmo assim os militares da FAB levavam a cabo sua missão com entusiasmo e seriedade:
“... está atingindo a faixa cultural, econômica e social, compatível com a seriedade das investigações que estamos procedendo. Isto porque o conhecimento de que a FAB está realizando estudos e pesquisas sobre tão palpitante assunto vem afastando aventureiros e farsantes e atraindo as pessoas cuja posição social, educação e principalmente formação moral, não permitiriam uma possível e até provável confusão com aqueles marginais. E assim, confiantes na FAB, elementos categorizados tem saído do anonimato, e se apresentado como preciosas testemunhas para nossas investigações”.
Este é um trecho da apresentação do Boletim SIOANI 2, onde fica bem claro que apesar das dificuldades e falta de recursos, os militares, tem orgulho do seu trabalho. Estavam realmente envolvidos e levavam muito a sério o que estavam fazendo. Também ficou muito claro que nutriam um profundo respeito pelas testemunhas que vinham corajosamente contar suas experiências com OVNIs. Esses militares da FAB sabiam perfeitamente que aos olhos de muitos, sua missão era tida como bizarra e excêntrica, mas para eles era uma missão pioneira e digna de louvor.
Ao analisar a sucessão de casos expostos a primeira coisa que chama atenção e a similaridade de detalhes descritos pelas testemunhas mesmo tendo ocorrido em regiões distantes e com pouca comunicação entre si. É o caso dos OVNIs com formato de “chapéu”.
Entre agosto e outubro de 1968, esse tipo de OVNI foi descrito em detalhes por pessoas muito humildes em sem acesso a TV (fato relativamente comum na década de 60) até as de maior escolaridade, posição social e com acesso a TV. Apesar das diferenças regionais, socioeconômicas e educacionais, havia uma clara semelhança em seus relatos.
Pessoas envolvidas no seu dia a dia como professores, bancários, engenheiros agrônomos, vendedores de frutas, cozinheiros, guarda-noturno, zelador de fazenda, motoristas, industriais e estudantes. Moravam em cidades como Avaré, Bauru, Lins, Botucatu, Tatuí, Araras, Pirassununga, Serra Negra, Guarulhos, Jaú, Santa Cruz (RJ), Itu, Caconde, Jales, Paranapuã e Limeira. Descreviam praticamente o mesmo tipo de objeto com um comportamento incrivelmente semelhante.
Primeiro havia uma luz intensa, depois era possível ver o objeto, que lembrava um “chapéu” ou mesmo uma bacia brilhante, emborcada, como descreveu um humilde agricultor de uma região erma do interior de São Paulo. Descrito como um estranho objeto, jamais visto antes. O objeto possuía uma cúpula superior apoiada pequena abertura, ou várias como em alguns relatos. Mas, o objeto, de um modo geral sempre era descrito de maneira muito parecida. Também foi observado que o OVNI avistado era capaz de deslocar-se a grande velocidade. Em cinco relatos as testemunhas presenciaram o pouso do OVNI. Isso ocorreu nas cidades de: Lins, Bauru, Botucatu e Pirassununga. As testemunhas descreveram o pouso como sendo suave e que a nave, ao chegar perto do solo para a aterrissagem, apoiou-se numa espécie de tripé. Também contaram que era possível ver uma luz amarelada no interior do objeto. Do interior do OVNI saíram os tripulantes (geralmente em número de três) descritos pelas testemunhas como sendo semelhantes aos humanos, porém mais baixos (mais ou menos 1,40m), com troncos fortes e olhos afastados. Em dois casos as testemunhas afirmaram ter ouvido a voz dos tripulantes. Possuíam uma voz muito grave e rouca.
Uma coisa que chama a atenção, quase que de imediato, é que a descrição dos seres que saíram do interior da nave é incrivelmente semelhante com a que foi feita por Lonnie Zamora, no caso de Socorro, Novo México. Ele viu os seres de longe, mas pode observar que se pareciam com “três crianças grandes ou adultos pequenos” e a nave pousada também se apoiava em algo que lembrava um tripé. A semelhança dos relatos é inegável: o mesmo número de tripulantes, com aspecto semelhante e a nave pousada de forma parecida.
Durante sua coleta de dados, os militares da FAB ouviram muitas testemunhas. O segundo tipo de OVNI mais relatado no período entre 1968 a 1969 era o que descrevia um objeto que emitia uma luz muito intensa, de cor alaranjada e que se movia pelo céu em grande velocidade. Esse tipo de OVNI foi visto por várias testemunhas em capitais, litoral e cidades do interior como: São Paulo, Belo Horizonte, Mongaguá, Franco da Rocha, Lins, Presidente Prudente, Jaú, Tietê, Olímpia, Niterói, Nova Friburgo e Passa Tempo.
Um universitário que se encontrava no litoral de São Paulo pode ver o foco de luz alaranjada pairando sobre o mar, quase tocando a água, e então, de um momento para outro passou a deslocar-se bruscamente em várias direções até desaparecer.
Em Minas Gerais, o fenômeno apresentou-se por mais de vinte minutos e foi presenciado por várias pessoas. Eram vários objetos que chamaram a atenção pela intensa luminosidade. Num primeiro momento apresentavam um foco de luz prateado e aos poucos passaram a emitir uma intensa luz alaranjada.
Mas, em todos os casos descritos aos militares, o traço comum além da forte luminosidade, era a forma como os objetos se movimentavam no céu. Em todos os casos, sem exceção, os OVNIs avistados deslocavam-se a grande velocidade, efetuando manobras rápidas em várias direções, inclusive para cima e para baixo e com paradas bruscas. Alguns disseram ter ouvido um ruído semelhante a um “chiado” durante as manobras.
Os militares da FAB listaram também um terceiro tipo de OVNI descrito como uma espécie de “’carrossel” semelhante aos encontrados em parque de diversões. Esse tipo de OVNI foi avistado e relatado por testemunhas de Pirassununga (São Paulo) e Jaraguá (Minas Gerais). Os relatos coincidiram ao descrever um objeto muito grande, que em um dos casos chegou a efetuar um pouso, num pasto, próximo aos animais (bois e cavalos). Descreveram também a presença de três tripulantes semelhantes a seres humanos. A testemunha de Minas Gerais pode descrever os tripulantes com mais detalhes, pois conseguiu observa-los por mais tempo. Notou, que eram três e eram um pouco mais baixos que pessoas comuns. Comunicavam-se com palavras curtas e sua voz era muito rouca. Alguns minutos após o pouso os tripulantes se retiraram para o interior da nave e partiram em grande velocidade.
O que pensar de descrições tão semelhantes, principalmente, quando os eventos foram testemunhados em ocasiões e locais tão diferentes, sem nenhuma relação entre si.
Fraude?
Que tipo de fraude e a quem beneficiaria?
É preciso entender que esses relatos foram feitos por civis à militares da Força Aérea, num período em que vigorava uma ditadura militar. Portanto, a última coisa que um cidadão de bom senso faria em uma situação dessas, seria mentir ou enganar deliberadamente esses militares. As consequências poderiam ser desastrosas. Também é importante notar, que naqueles tempos até os mais humildes vivendo nos locais mais remotos, sabiam muito bem disso.
Seria injusto, não deixar de observar que apesar de todas as dificuldades e falta de recursos, esses militares desempenharam sua missão com um profissionalismo digno de louvor. Registraram com riqueza de detalhes e ilustrações cada depoimento recolhido, tornando possível, que mesmo passados tantos anos, seja possível avaliar e comparar dados.
Ao longo da década de 60 foram observados casos inexplicáveis e singularmente estranhos de aparecimento de OVNIs. Essa situação acabou gerando uma série de especulações que continuam inflamando o imaginário popular.






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